O GAME11, o FII Guardian Multiestratégia Imobiliária I, acaba de divulgar seu relatório gerencial de fevereiro de 2026 — e os números merecem atenção. O fundo distribuiu R$ 0,100 por cota, com pagamento previsto para 20 de março, representando um dividend yield mensal de 1,10% com base no preço de fechamento de R$ 9,10 na data-com.
O valor patrimonial da cota está em R$ 9,60, enquanto o mercado negocia a cota com um deságio de 5%, no múltiplo P/VP de 0,95x. Com um portfólio 100% alocado em ativos-alvo, reservas robustas e a 3ª emissão de cotas recém-encerrada, a pergunta que fica é: esse nível de dividendo é sustentável — e pode até subir?
DADOS DA COTA (PONTO DE ATENÇÃO ⚠️)
A cota negocia com um deságio de aproximadamente 5% em relação ao VP marcado a mercado (R$ 9,60). Isso cria uma situação interessante para quem compra agora: ao adquirir a cota abaixo do valor patrimonial, o investidor está, na prática, “pagando mais barato” pelos ativos da carteira e capturando um spread médio mais elevado.
Com base no VP curva de R$ 9,90, o spread médio da carteira está em IPCA + 9,15% e CDI + 3,16%. Se a cota fosse negociada a R$ 9,10, o spread implícito sobe para IPCA + 10,97% e CDI + 4,61% — o que representa uma oportunidade relevante para o investidor de longo prazo.
O risco é que esse deságio persista ou se amplie caso o cenário macro piore ou o sentimento em relação a FIIs de papel continue pressionado.
DIVIDENDOS (PONTO POSITIVO ✅)
O fundo distribuiu R$ 0,100/cota referente ao mês de fevereiro de 2026, com pagamento em 20 de março de 2026. Isso representa um DY mensal de 1,10% sobre o preço de R$ 9,10 na data-com — ou 13,19% acumulado nos últimos 12 meses, equivalente a IPCA + 8,38% em bases comparáveis.
O resultado do mês foi de R$ 0,090/cota — abaixo da distribuição de R$ 0,100. A diferença foi coberta pelas reservas de resultado acumulado, que encerraram o mês em R$ 0,074/cota, nível que a gestão considera robusto.
O resultado menor em fevereiro foi impactado diretamente pelo IPCA, principal indexador da carteira. A combinação dos índices de novembro/25 (0,18%), dezembro/25 (0,33%) e janeiro/25 (0,33%) refletiu nos juros reais recebidos neste mês. O CDI, por sua vez, registrou retorno nominal de 1,00% no mês.
A guidance da gestora para os próximos meses é manter distribuições mínimas de R$ 0,100/cota, com projeções de R$ 0,096 e R$ 0,102 para abril e maio de 2026, respectivamente. Isso demonstra que, mesmo com alguma variação no resultado mensal, o fundo tem reservas e capacidade para sustentar esse patamar de dividendos.
COMPOSIÇÃO DA CARTEIRA (PONTO POSITIVO ✅)
O portfólio do GAME11 está 100% alocado em ativos-alvo, distribuído em 21 ativos: 20 CRIs e 1 FII (o Guardian Hedge Fund — GAHF, que por sua vez investe em outros FIIs e CRIs).
Indexadores predominantes:
✅ 66% IPCA
✅ 22% CDI
✅ 11% Prefixado (expansão recente via CRI Carrefour a 14% a.a.)
Perfil de risco e alocação:
✅ 96% Beta / 4% Alpha
✅ 78% Core / 22% Tático
✅ 86% Corporativo / 14% Pulverizado
✅ 95% dos ativos possuem Alienação Fiduciária (AF) como garantia real
✅ Duration média: 3,9 anos
✅ Adimplência: 100% dos devedores em dia
Tipologia dos imóveis em garantia:
✅ 61% Misto
✅ 14% Residencial
✅ 11% Varejo
✅ 11% Logístico
✅ 4% Escritório
Concentração geográfica das garantias:
✅ 75% Misto
✅ 17% São Paulo
✅ 7% Mato Grosso
Pulverização de devedores:
✅ O maior devedor individual é o cluster “multidevedor” com 42%, seguido por Pulverizado (14%), Carrefour (11%), São Benedito (7%), Almanara (7%), entre outros.
O portfólio é bem diversificado entre setores, indexadores e devedores, com estruturas de garantia sólidas. O ponto de atenção é que 42% do portfólio está concentrado no Guardian Hedge Fund (GAHF), um fundo gerido pela própria Guardian — o que demanda monitoramento quanto à transparência e liquidez dos ativos subjacentes.
MOVIMENTAÇÕES DO MÊS (PONTO POSITIVO ✅)
O principal movimento de fevereiro foi a aquisição de um lote adicional do CRI Carrefour Prefixado, a uma taxa de 14,0% a.a.. Com isso, a exposição a ativos prefixados subiu para aproximadamente 11% do portfólio total.
A decisão foi estratégica: com a expectativa de início de um ciclo de cortes na Selic ao longo de 2026, ativos prefixados tendem a se valorizar (ganho de capital), além de garantir maior previsibilidade de retorno para a carteira. O ativo tem risco de crédito corporativo de alta qualidade — devedor Grupo Carrefour Brasil, com contratos atípicos de locação de 15 anos — e demonstra boa liquidez no mercado secundário.
Também foram alienadas posições pontuais em FIIs listados dentro do GAHF que registraram apreciação relevante no período — entre eles, redução da posição em MXRF11, que valorizou 3,9% no mês e atingiu P/VP de 1,05x. O GAME11 também incorporou ao GAHF um novo ativo: o Guardian Core Residencial (GCORE), um FII de prazo determinado estruturado para aquisição de imóveis residenciais com retorno estimado em CDI + 5,75%.
Os dois ativos “táticos” que haviam entrado no portfólio em janeiro — estruturados como uma espécie de “barriga de aluguel” — foram integralmente alienados à contraparte conforme planejado, com a rentabilidade acordada incorporada ao PU de recompra.
ATUALIZAÇÕES DE CRÉDITO / RISCOS (PONTO DE ATENÇÃO ⚠️)
O relatório indica adimplência de 100% em todo o portfólio de CRIs — nenhum devedor em atraso ou em processo de renegociação. Não há menção a recuperações judiciais, renegociações ou inadimplências no mês.
No entanto, cabe monitorar:
São Benedito (7% do portfólio): grupo com forte atuação no Centro-Oeste (MT), com três séries de CRI na carteira (S.Benedito II, III e IV). As garantias incluem AF de 182 imóveis em 19 empreendimentos, cessão fiduciária de recebíveis de mais de 430 contratos de locação e fundo de reserva. O nível de concentração neste grupo merece acompanhamento.
HBR W (3,46% do portfólio): CRI lastreado na operação do Hotel W São Paulo, com LTV inicial de 75% — o mais elevado da carteira entre os ativos corporativos. Embora as garantias incluam AF das unidades e cessão fiduciária do NOI, o risco do segmento hoteleiro é inerentemente mais sensível a ciclos econômicos.
Comporte (3,77%): classificado como ALPHA — único ativo nessa categoria entre os CRIs — com devedor do setor de transporte (Viação Piracicabana / Comporte Participações). Setor diferente dos demais imóveis da carteira, o que exige atenção diferenciada.
De forma geral, a carteira segue com estruturas de garantia sólidas, e o nível zero de inadimplência é um ponto claramente positivo.
CENÁRIO MACRO (PONTO DE ATENÇÃO ⚠️)
O mês de fevereiro foi marcado por perspectivas de início de afrouxamento monetário no Brasil. A Selic se manteve em 15,0% a.a., mas o mercado consolida expectativa de cortes graduais a partir de março, com projeções de Selic entre 12,0% e 13,0% ao final de 2026.
O IMA-B5 fechou o mês em 8,32% a.a., com recuo de 23 bps em relação aos 8,55% de janeiro — indicando leve compressão das taxas nos vértices mais curtos da curva de juros reais.
As expectativas do Boletim Focus apontam inflação acima de 4,0% para 2026, ainda pressionada por tensões geopolíticas envolvendo EUA e Irã. O IFIX encerrou o mês com alta de 1,32%, acumulando trajetória positiva especialmente nos últimos dias úteis de fevereiro.
Para o GAME11, o cenário macro tem efeitos mistos: a compressão de juros reais reduz o carrego dos CRIs indexados ao IPCA no médio prazo, mas favorece ganho de capital nos ativos prefixados recém-adquiridos. O portfólio majoritariamente IPCA+ tende a ser impactado pela desaceleração inflacionária projetada — o que justifica a estratégia da gestora de elevar a parcela prefixada.
LIQUIDEZ (PONTO POSITIVO ✅)
O GAME11 encerrou fevereiro com média diária de negociações de R$ 165.656,16 — o maior patamar desde março de 2025. No mês, a cota oscilou entre a mínima de R$ 8,97 e a máxima de R$ 9,34, encerrando em R$ 9,06 com variação negativa de apenas -0,33%.
Nos últimos 12 meses, a cota acumula valorização de 11,99% e o preço médio do período foi de R$ 8,62. A crescente atividade no mercado secundário refletiu levemente na base de investidores, que chegou a 21.279 cotistas ao final de fevereiro.
Para um fundo com patrimônio líquido de R$ 272,9 milhões, a liquidez diária de ~R$ 165 mil ainda é modesta — o que pode dificultar movimentações maiores por parte de investidores institucionais. Para o investidor pessoa física, porém, o volume é razoável.
CONCLUSÃO
Fevereiro de 2026 foi um mês de consolidação estratégica para o GAME11. Os três pontos mais importantes para o investidor são:
Primeiro, a distribuição de R$ 0,100/cota foi mantida mesmo com um resultado mensal de apenas R$ 0,090, graças ao colchão de reservas de R$ 0,074/cota — e a gestora confirmou que esse patamar mínimo será mantido nos próximos meses.
Segundo, a 3ª emissão de cotas foi concluída com sucesso, captando R$ 63 milhões e expandindo o patrimônio em 31%. Os recursos estão sendo alocados de forma disciplinada, com destaque para a ampliação da posição prefixada (CRI Carrefour a 14% a.a.) numa aposta consistente com a expectativa de queda de juros.
Terceiro, o deságio de 5% sobre o VP MTM (cota a R$ 9,10 vs. VP de R$ 9,60) representa uma oportunidade de entrada com spread implícito mais elevado — porém, o investidor deve estar ciente da concentração de 42% do portfólio no GAHF, um veículo que ainda está em fase de consolidação e cuja transparência depende da gestora.
Os principais riscos a monitorar são: possível redução do resultado com a desaceleração do IPCA, concentração no GAHF, e a exposição ao Grupo São Benedito (7% do PL), que possui múltiplas séries na carteira com garantias reais, mas exige acompanhamento contínuo.
Isso não é recomendação de investimento.